Toda semana um novo Mini para você.
Odeio chuvas de verão.
Em um momento está tudo claro e do nada, ela vem, em toda sua glória. A chuva me pegou pouco antes de chegar em casa. Entro, tiro os óculos e a roupa molhada e vou pro banheiro. Só depois me dou conta de que esqueci o shampoo no guarda-roupa. Droga.
Ouço a porta abrindo, meu amor chegou, que bom.
— Amor? Pode pegar meu shampoo pra mim? Tá lá no guarda-roupa.
Ele não responde, deve estar estressado hoje, mas escuto a porta do guarda-roupa abrindo e em seguida a silhueta de sua mão deixando o shampoo no box.
— Obrigado querido.
Terminando de me enxugar. Ouço a porta de casa abrindo novamente. Ponho os óculos e saio do banheiro.
— Oi amor. Vai sair de novo?
— O que quer dizer, meu bem? Acabei de chegar.
— Se você acabou de chegar... Então quem me entregou o meu shampoo?
Acordou com os primeiros raios de sol dançando por entre as finas camadas de tecido que cobriam a janela do quarto.
Deu um salto da cama e com entusiasmo abriu a cortina, gritando:
- BOMMM DIA SOL!
Uma onda de terror tomou conta do seu corpo, quando o sol respondeu ao seu "bom dia" com uma piscadela maliciosa.
Nunca mais abriu aquela janela, nem deixou de tomar seus remédios.
Estava no quarto da minha esposa, quando um ruído vindo do quarto do meu filho chamou minha atenção.
Corri até lá. Pela porta, antes de entrar, já foi possível ver um vulto projetado sobre o berço.
— Vá embora! – Ordenei, usando todas minhas forças.
A sombra se virou surpresa. Um som, que muito pouco lembrava a voz humana, saiu daquilo que talvez um dia fosse uma boca.
— Não sabia que a casa já estava ocupada. Deveria cuidar melhor do seu território!
Falou, enquanto desaparecia como fumaça levada por uma brisa agoniante.
Fui até o berço e meu filho seguia dormindo, sereno e tranquilo. Só então consegui parar de tremer. Não pensava ser possível sentir tanto medo, mesmo depois de já ter morrido.
Vamos olhar todo o catálogo de mini contos da Bilbbo e trazer um que seja a sua cara!
Ler meu Mini!Nem os olhos roxos conseguiam retirar o sorriso simpático, enquanto ela oferecia seus biscoitinhos para toda a delegacia.
O delegado chamou-a em sua sala.
- Dona Nina, conte novamente seu incidente, por favor.
- Pois bem. Dos maridos que tive, Adolfo até foi um dos bons, mas se fosse contrariado, era em mim que descontava sua frustração.
- Sempre foi ou hoje foi a gota d'água?
- Ele era bem previsível, sabe? Mas aí...
- Mas aí...?
Um brilho no olhar daquela senhora ligou o alerta na cabeça dele.
- Não admito palavrão em minha casa, senhor. Ele me chamou de puta! Enfiei minha melhor faca nas costas dele.
Dona Nina sorriu.
Ele recebeu uma mensagem no celular: "Achamos mais 'coisas' na casa da senhora."
- Aceita outro biscoitinho enquanto lhe conto minha sina de viúva?
Calma, Dona Nina falava com o delegado, enquanto este devorava seu biscoitinho.
- Alfredo foi meu primeiro marido. Desatento ao extremo. Passei os primeiros anos me devotando a ele.
No celular do delegado, mensagens surgiam.
"Ela tem um porão! Parece o asilo de 'Jogos Mortais'. Quem mais morava com eles?"
Doce, ela falava:
- Aí, você tem uma iluminação. Ele me trocava pelos amigos e o futebol. - Que espécie de homem faz isso? Um dia, passei as roupas dele e preparei o café.
- Até pão quente com manteiga fiz. Mal-humorado, não disse nem bom dia ou muito obrigado. Comeu em silêncio, o traste! Sequer sentiu o gosto do veneno de rato.
Em silêncio, o delegado olhou o biscoitinho mordido.
- Não se preocupe. O senhor parece dar a atenção necessária a uma mulher.
Disse ela sorrindo.
"Estou aguardando a análise de um objeto suspeito.", dizia a mensagem.
- Dona Nina, pelo que eu percebi, não houve nenhum marido que não….
- Me aborreceu? Ela sorriu.
- Ah, bem, teve o Alberto. Tocava violão e cantava para mim.
- Adorava Ritchie…"Menina veneno, você tem um jeito doce de ser…"
- Outro marido com A?!
- E tem algo errado nisso, senhor?
- Não, inclusive, meu nome é Adriano.
- Mas o mundo é pequeno demais!
- Aceite mais um biscoito, sim?
Ofereceu, deliciada.
- E o que houve com o Alberto?
- Oh! Meu querido Alberto faleceu.Era alguns anos mais velho do que eu. Câncer no pâncreas; não havia o que fazer! Quase fui à falência para salvá-lo.
“Confirmamos que o abajur é feito de carne humana.”, estava na mensagem.
- Mas ainda bem que salvei uma parte dele que vela meu sono todas as noites...
O delegado, educado, falava:
- A escrivã foi fazer um café. Aceita?
-Por que não?
Dona Nina sorriu.
-Aquino, meu outro marido, bebia muito, para curar as ressacas. Eu perdoava o alcoolismo. Não satisfeito, ele me traiu com uma sirigaita qualquer.
- Por causa dele, quase fiz algo que me arrependi. Com o encanador. Um rapaz bonito. E eu era mais jovem.
- Ele me beijava perto da pia. Me fazia sentir coisas, sensações. Quando eu lembrei que era casada, acertei a cabeça dele com a chave de grifo.
- Aquino chegou bêbado e cheirando perfume barato. 'Estava cuidando de minhas coisas, megera!', ele disse.
- A culpa foi dele. Quase virei uma adúltera. Por isso, acertei-o com a mesma chave de grifo.
- Os dois adubam meu jardim até hoje.
No celular, surgiu a mensagem:
"Há dois esqueletos no jardim."
Os biscoitinhos tinham acabado. Dona Nina parecia uma avó contemplando seu neto. O delegado estava empanturrado. Tentou se justificar:
- Parei de fumar há pouco tempo, então, estou substituindo o cigarro pelo doce. Mas estavam realmente bons!
- Entendo. Meu Alcides tentou muitas vezes largar esse vício também. Fez de tudo um pouco, e começou a engordar, mas não de uma forma boa. Ele comia um bolo inteiro se eu deixasse, sabe?
- E imagino que a senhora ficou escrava do fogão?
- Fiquei, mas não por muito tempo. Piscou.
Sem mensagens. Bom sinal?
- Não precisei fazer muito. Ele morreu intoxicado com uma fornada de biscoitinhos, exatamente como essa.
- Usei meu ingrediente secreto... Pó de Maridos.
Gargalhou.
O delegado só teve tempo de chegar ao corredor. Outros desavisados estavam no mesmo estado.
Alguns meses depois...
- Sabia que viria me visitar.
Disse dona Nina, na área de visitas da Prisão.
Adriano sentou-se ao lado dela:
- Tinha de vir. Tenho uma pergunta. A senhora poderia permanecer ilesa. Por que ir à delegacia? Por que se entregar?
O sorriso no rosto, a senhora disse:
- Não. Eu não me entreguei. De que adiantaria fazer o que fiz, sem contar a ninguém. Não tenho filhos e o senhor me pareceu o mais próximo a um neto.
- Peraí! Não se arrependeu?
- Todos os meus maridos foram homens terríveis. Ninguém vê isso. Quem era o monstro, afinal?
- Mesmo com o que acharam em sua casa, a senhora ainda conseguirá sair por causa de sua idade.
- O advogado foi muito bom. Lembrou meu finado Astrogildo.
- A senhora teve um marido advogado?
- Se tiver tempo, posso continuar contando minha sina de viúva.
- Oi, Pai! Eai, como foi seu dia?
Perguntou Alice assim que entrou na casa e viu o homem na cozinha.
- Foi excelente querida, você pode vir aqui um instante?
A maciez presente na voz gerava um contraste inusitado com a forma precisa com que executava o corte do pedaço de carne crua sobre a bancada da cozinha.
- Só um instante, vou escovar os dentes, o Johnatan me deu um pastel horrível e preciso tirar esse gosto da boca.
- É claro meu bem, depois venha aqui.
O sorriso do pai sempre foi uma expressão encantadora para Alice.
Quando a garota entrou no banheiro, não precisou nem de meio segundo para resgatar uma antiga lembrança de infância, que, aparentemente, o pai havia deixado sugerida para ela.
Em sua frente, sobre o balcão da pia, as escovas de dente se cruzavam perfeitamente. Era assim que ela e seu pai deixavam identificada a pista de que uma mensagem secreta estava oculta sob vapor no espelho. Bastava um sopro de calor, e então, como mágica, as palavras surgiram diante dela.
Foi exatamente o que fez, mesmo sem sequer lembrar a última vez em que haviam brincado disso, e se provando estar certa, as letras rapidamente começaram a se revelar. O segredo oculto trazia apenas uma frase:
O HOMEM QUE ESTÁ NA CASA NÃO SOU EU!
Quando eu me mudei para meu novo apartamento, na mesma noite, acordei com algo se arrastando pelo corredor.
Na porta do quarto, surgiu um ser grande e curvo, mais escuro que
o próprio escuro. Do seu rosto, só vi
seus olhos vermelhos.
Isso durou algum tempo, até o dia
que chamei-o para dormir comigo.
Loucura, né? Eu sei.
Foi incrível ver aquela forma assustadora virar um homem triste e cansado.
Dormíamos de conchinha até o dia em que desapareceu, e foi exatamente no dia em que arranjei um emprego, e assinei meu divórcio.
Aquele ser era o meu demônio interno. Aquele homem triste era eu.
Conclusão, meu caro amigo:
Os problemas podem ficar desproporcionais, assustadores, e deixá-lo insone, mas não são eternos. Leve-os pra cama se quiser. Enfrente-os!
Se eles são você em algum momento, logo serão apenas uma fase que ficou para trás.
Larry, Larry, Larry o espantalho
Todos dizem que passava
o dia inteiro pendurado
por um cabo de vassoura,
no campo do Seu Fábio.
Destruído pelo tempo,
já não tinha mais um lado.
E redondo em sua barriga,
já se via um buraco.
Ainda nessa história,
Havia Billy Delgado
O filho do fazendeiro
e que era muito mal criado.
Todo dia, depois da escola,
o rapaz voltava irritado
e, sempre, depois da colheita,
ele amassava Larry com o arado.
No Halloween, no entanto,
depois de uma festa do condado,
Billy resolveu voltar sozinho
e entrou no campo para um atalho.
Larry, vendo a oportunidade,
desceu de seu lugar com cuidado.
E pela manhã, Billy havia sumido
e Larry tinha um novo braço.
Sempre tive o hábito de me sentar em minha cadeira de balanço, na minha varanda, e observar o mundo.
E todos que por ali passavam me cumprimentavam. "Bom dia", "Boa Tarde", "Boa noite", "Bênça, pai", "Bênça, vô".
No vai e vem de minha cadeira, vi muitos chegando e mais ainda se despedindo.
Vi o mundo mudando. Me vi envelhecendo.
Hoje em dia, as pessoas não me cumprimentam mais. Ignoram-me. Viram o rosto.
Esta geração é estranha, sem educação.
E assim passam esses hábitos para seus filhos.
Outro dia, escutei alguém dizer a uma criança inocente, que chegou perto de mim e da minha cadeira, palavras que ainda não entendi.
"Não chegue perto desta cadeira! Já falamos que ela é assombrada! Olha ali! Agora mesmo, o fantasma do falecido vovô deve estar se balançando nela!"
Marcos era professor em uma escola pública. Com seus olhos verdes e um charme fatal, fez com que discursos imorais fossem encarados como brincadeira. Entre risos, na sala dos professores, falou sobre o corpo de uma aluna e como era difícil frear seus “instintos masculinos” perto dela.
Agia como se fosse um predador. As fofocas que corriam sobre a castidade de Ana, a professora de Ensino Religioso, atiçaram-no.
Após muita insistência, conseguiu convencê-la a sair em um encontro.
Aparentemente bêbada, ela o levou para seu apartamento. Arrastou Marcos para o quarto, puxou algemas de dentro de uma gaveta e, com um sorriso lascivo, o prendeu na cama.
— Não sabia que você era assim — Marcos disse num sussurro.
— Todos temos nossos demônios.
Se Marcos não estivesse pensando em como contaria sobre aquela noite para os colegas, teria percebido o círculo no chão e velas formando uma figura.
Ana saiu do quarto e trancou a porta. Houve apenas um grito abafado e o som de sangue jorrando. O demônio de que falara era real e precisava se alimentar".
A mãe da minha esposa tinha morrido há uma semana quando recebi a ligação no celular:
— Estamos com a sua sogra.
— Devem ser no Inferno, porque a desgraçada morreu!
Desliguei o telefone, puto com aquilo. Já não bastasse incomodar com um golpe bobo como aquele de sequestro, ainda usava uma falecida?
Você vai se arrepender, veio um SMS logo depois. O finalzinho do número era 666. Ignorei aquilo, claro.
Hoje, cinco anos depois que meu casamento acabou, ainda sou assombrado pelo fantasma da minha sogra. E, pelo que soube, não existe um até que a morte os separe para isso.
Oi, você. Sim, você mesmo que está lendo. Como foi seu dia? Espero que hoje você tenha vencido seus demônios internos, levantado da cama e retomado a rotina. Que você tenha conseguido organizar suas ideias e começado aquele projeto, mesmo com seu coração batendo a mil. Que você se permitiu andar por aí, mesmo querendo desesperadamente correr pra casa.
Ah, e mesmo que hoje não tenha sido o melhor dos dias, e a escuridão, velha amiga, foi sua companhia, junto com tudo que há nela e te fere. Está tudo bem. Está tudo bem se você chorar!
No fim, estamos todos sentados na beira de um abismo, que flerta conosco, chamando para conhecer o fundo. Nós esquecemos que somos seres alados, e que do abismo, nós tomamos impulso para voar.
Então, vá e voe. E verás que nada vai te impedir de alcançar o mais profundo dos céus. Você é muito mais do que pode imaginar.
Senti quando me apalparam os bolsos, e sem saber quem era, virei-me bruscamente, buscando em alguma direção encontrar o responsável, que me subtraíra o ouro e a prata. Em vão, não encontrei sequer resquícios, mas além disso, alguns pelos brancos se sobressaíram em meio ao emaranhado de minha barba e cabelos.
“- Ladrão!” – assim bradei.
Os guardas logo se prontificaram a buscar pelo meliante, mas também sem sucesso, quando então senti tocar-me novamente, e logo um punhado de conhecidos, amigos e familiares, desapareceram. Seria um sequestrador? Pensei comigo.
Mas antes que entendesse tudo que se passava, fui tomado pelo cansaço e enfraquecido, roubaram-me também a vitalidade.
Por fim, caída ao chão, notei uma velha ampulheta e logo compreendi, o ladrão era o tempo.
Esta escrita e essas linhas, não são minhas! Teria eu tão mau gosto a ponto de copiar o enredo de um outro rosto? Seria assim tão descarado a ponto de usar um roteiro que já fora apresentado?
Não! Não são mesmo minhas estas palavras confusas e ato criativo redundante, não sou assim tão categórico e simplório, para escrever algo tão sem alma e sem coração. No entanto há que se admitir que vendeu um milhão de cópias e talvez venda muito mais, mesmo sendo assim uma história tão fugaz e previsível.
Seria o paladar do leitor tão pouco aprazível a ponto de fazer render este ensaio de livro!? No entanto há que se admitir que os jornais anunciam ser o próximo best seller.
Não gosto disso! Não é meu livro, mas por via das dúvidas deixarei em meu pseudônimo.
Prometera, ontem, uma massagem. Hoje esqueceu, amanhã também não lembrará, semana que vem muito menos. É folga, emenda de feriado, descerebrado, só pode, um descabimento desse, deixar a dona assim, de costas duras, bastava erguer o dedão e apertar aonde dói, não mata não, serviço de casa castiga a carcaça igual pegar no batente, parece que não entende.
Ela não quer mais, que fique maneta, esse quengo, a escopeta tá ali de canto, o tranco do último disparo foi tanto que travou a coluna, ai ai ai, esmigalhou os dedos todos.
Deixa passar o feriado que ela arruma outra mão, de outro homem, se insistir na preguiça vai fazer companhia para os demais na vala do quintal, é capaz de nascer um pé de frouxo se enterrar um terceiro no local. Oh mundo pra ter homem mole!
Ainda doem as costas.
Entre a areia da praia e o horizonte, há um mundão d’água pra mergulhar.
Fico aqui sentada, desenhando coisas com um graveto, imaginando quando o mar vai apagar. Um coração, meu nome e o nome de alguém.
Não importa mais; o mar apaga.
O mar leva e não volta mais.
Meus olhos se fixam onde a linha divisa o resto do mundo.
“Será que consigo nadar até lá...?
Seria um esforço inútil, já que sei que não vou te encontrar.”
Pensando em tudo e em nada, nem noto que a tarde chega e a noite cai.
Um vento frio me envolve e percebo que é a solidão quem me abraça, calma, mas com mãos enormes.
Um arrepio me eriça os pelos e não tenho mais medo - te reconheço.
Um gosto de lágrima me chega aos lábios, engulo em seco, e me despeço de ti.
Ele nasceu em um magnífico palácio. Antes que pudesse sentir fome lhe davam de comer. Antes que desejasse algo já o possuía em mãos. Frio ou calor, nunca sentiu.
Todos lhe sorriam. Todos o bajulavam. Tudo lhe era possível.
Um dia, enquanto admirava a paisagem por uma de suas janelas, viu um pardal pousar sobre o peitoril.
O jovem exigiu que o pássaro pousasse em sua mão, mas o pardal voou para longe, pois era livre.
O coração do mancebo despedaçou-se, à semelhança de uma frágil taça de cristal.
Caído, nos braços de um de seus servos, deu seu último suspiro.
O homem saiu da festa para o jardim, meio bêbado. Precisava respirar um pouco. Atrás de si a música ainda tocava alta e as pessoas riam.
Foi somente quando se encostou na parede que notou que não estava sozinho. Uma mulher esguia estava lá, fumando cigarro.
-Vim respirar um pouco.
Ela concordou, sem desviar os olhos da paisagem. Da penthouse dava para ver a cidade acesa e as estrelas.
-Como está lá dentro?
-Animado.
Ele se aproximou e a morena lhe ofereceu o cigarro. O homem aceitou e deu uma tragada.
-Quando acha que vai acontecer?
Ela deu os ombros.
-É melhor não saber, eu acho.
-Verdade.
Ficaram em silêncio ao que uma risada alta e o barulho de algo se quebrando os fez rir.
Ele devolveu o cigarro.
Foi quando o céu começou a ficar vermelho e um vento quente os atingiu em cheio.
A mulher deu uma longa tragada e jogou a bituca no chão, apagando-a com a ponta do salto.
-Não deveria estar com a família?
-Eu não tenho ninguém.
Ambos olharam um para o outro e se deram as mãos pouco antes do cometa atingir a Terra.
E a festa finalmente acabou.
-Você me ama? -ele perguntou, segurando sua mão com força,para que lhe desse atenção.
-Oi?
-Caramba, Ana! É tão difícil falar essas palavras? É tão difícil você demonstrar algum tipo de afeto?
Ana estava chocada.
-Tanto tempo me dedicando a você, me entregando a você, cuidando de tudo por você, e o que eu ganhei? Hãn?
-Theo, olha…
Theo perdeu a paciência. Apertou sua mão com mais força. Prevendo o caminho que ele tomaria, Ana tentou se soltar.
-Nada! Sempre me sugando, e nada!!!
-Não, Theo, por favor!
-Sinto muito!
Com a mão livre, pegou a estaca e afundou sua ponta no peito de Ana, que transformou-se numa criatura grotesca, e depois em pó, que foi levado por um vento anormal.
Era melhor passar uma vida mortal sozinho, do que viver uma eternidade com alguém que não correspondia ao seu amor.
“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se no andar”.
Ele leu a placa e riu. “Que aviso inútil”.
Ao entrar, comentou esse pensamento com o ascensorista, que discordou dele.
- Você estaria certo, se o aviso fosse sobre o elevador.
- É sobre o quê, então?
- Não sobre o quê, mas quem: Mesmerus, o espírito ceifador. Ou, como ficou conhecido, Mesmo.
O homem alcançou o seu crucifixo pendurado no pescoço. Riu para disfarçar o nervoso.
- Ficaria com medo, se eu acreditasse nessas coisas.
- Ninguém precisa acreditar em nada, para algo ser real.
Silêncio.
O único som era o das engrenagens. Foi então que o homem percebeu que o seu andar não estava selecionado.
- Você não me perguntou para que andar eu vou.
- Não perguntei.
- Ué, mas tá descendo? Eu queria subir.
- Todos querem.
Lurdes estava sentada no banco da praça alimentando as pombas, quando um homem bastante alto sentou-se ao seu lado.
- Você veio me buscar?
- Sim.
- Posso terminar de alimentar as pombas?
- Claro.
Após finalmente terminar de alimentar cada um dos pequenos pássaros, Lurdes olhou para o homem que vestia um elegante terno e perguntou.
- Como é lá? Digo, como é o céu?
- É lindo, perfeito e maravilhoso, como tem de ser.
- Eu vou gostar?
- Provavelmente, gostaria bastante.
- Gostaria? - Perguntou surpresa.
- Sim, infelizmente você não vai pra lá.
Lurdes, agora em choque, tremia. Certamente, se já não fosse morrer, morreria de infarto agora mesmo.
- Mas sempre fui uma pessoa boa, bela, recatada e do lar.
- Eu sei Lurdes, é uma pena mesmo você não ter curtido aquela imagem de Jesus no Facebook e ter escolhido ir para o inferno.
Quando os conheci eles tocavam para meia dúzia de bêbados em um bar.
Hoje em dia ninguém mais quer saber de rock n’ roll ou blues. Uma pena. Mas lá estavam, bastante empolgados, sonhando em ganhar um mundo, que na verdade, nunca daria ouvido para eles.
Os garotos eram bons. Bons de verdade. Hoje em dia isso também é difícil. Atualmente o que importa não é mais importante. Sempre fiz o meu trabalho com um sorriso no rosto. Mas com esses rapazes… Com eles foi ainda mais prazeroso.
Vê-los agora, tocando para 30 mil pessoas, não é algo que me surpreende.
Sim, eu sou muito bom no que faço. Tenho bastante noção disso. E acredite em mim, meu amigo. O que eu cobrei deles na época, é o mesmo que posso cobrar de você.
E então, quer viver o resto da vida sendo um nada?
O que me diz?
É um bom preço pela sua alma…
- Ei, Lucas! Como foi a conversa com a Fernanda ontem?
- Foi ótima, Jorge. Finalmente decidimos, de forma consciente, que não queremos ter filhos.
- Mas...
- Jorge tentou falar, mas a resposta da pergunta não feita, veio de graça.
- Essa noite daremos um jeito nas crianças.
Deslizo a mão em seus cabelos grisalhos. Há tanta coisa para contar, sabe? Desde o dia que te conheci, quando de forma inusitada, te atropelei com a minha bike…
Nossa primeira dança no baile de formatura, nosso primeiro beijo lá na casa dos seus pais…
Depois disso, trabalhando, alugamos uma casinha e vivemos momentos maravilhosos; parecíamos duas crianças brincando sem nunca cansar.
Sofri junto com você no nascimento do nosso primeiro filho, mas deu tudo certo. Aprendi, com muitos erros, a decifrar cada expressão e sentimentos teus. Não fomos para Paris ou Nova York, mas descobrimos muito do nosso Nordeste.
Hoje, por ironia do destino, você não se lembra mais de mim, nem dos nossos inúmeros momentos juntos.
Mesmo assim, amanhã irei te contar tudo de novo, como se fosse a primeira vez.
Onde vc está?
Sé. Longe... Vc?
Ainda esperando o busão
Meodeos...
Que foi?
Tem um deus grego aqui
No seu vagão?
Na minha frente
Com sua sorte, só pode ser Hefesto
Não! É Apolo
Certeza? Vc nunca foi boa em mitologia grega
Apolo em toda sua glória
Manda foto
Como?
Finge que tá mexendo em alguma coisa e tira, ué. Discretamente
Tá.
30 minutos depois.
Alice? Ta aí? Td bem?
Vc me paga!
?
Disparou o flash, paguei o maior mico da minha vida
HSHUASHHAUHSUA
Vc ri? Fiquei com tanta vergonha que saí do metrô, entrei no que estava do outro lado da plataforma e me perdi. Agora estou num ônibus que passa perto de cas.. meodeos!
O que?
Ta vindo pra cá
Apolo acabou de entrar no ônibus
Não!!!!
30 minutos depois.
Alice? Kd vc? O que tá acontecendo?
Conto depois. Não da pra tirar foto agora S2 S2
“Pera-uva-maçã?” Ele respondeu que salada de fruta.
Nunca ganhara um beijo, e queria que fosse do sabor da goma de mascar que ela usava.
Cada bola que ela fazia e estourava, sentia aquele cheiro delicioso de tutti-frutti.
Ela olhou em seus olhos, estourou mais uma bola e perguntou se tinha que ser na boca.
“Oras, lógico, a brincadeira não é essa?” Não disse, mas pensou. Fez apenas que “sim” com a cabeça, olhando para os lados para ver se tinha algum adulto por perto.
Porque gente grande não entende nada da pressa que as crianças têm para serem felizes o tempo todo. Para eles, tudo tem o seu tempo.
Mas o beijo que ele queria era para agora, não para quando fosse adulto com 15 anos.
Instintivamente, fechou os olhos. Foi quando um lábio doce e molhado encostou ao seu. E mil foguetes explodiram no céu, na mesma rapidez que seu coração quase parou... e ela se afastou, deixando em sua boca o chiclete Ping Pong mais gostoso da sua vida!
Não foi um dia muito fácil, a dor da perda o perseguia em cada passo que dava.
Lá no fundo sentia que poderia ter feito algo diferente, sei lá, se tivesse segurado com mais força, talvez não a tivesse perdido.
Agora era tarde. O maior clichê da vida é a morte, quando ela chega vemos o que deveria ter sido dito e não foi.
Mas ele não iria embora dali, não sem ela, afinal, fizeram uma promessa de ficarem juntos. Esperaria o quanto fosse preciso na mesma poltrona em que morreu, até ela poder deixar a casa com ele e partirem juntos.
Eu já amei uma vez.
A muito tempo atrás eu me lembro de ter visto uma estrela, foi a primeira vez que senti meu coração bater mais forte.
Eu só queria tê-la, então desejei que ela ficasse.
Eu não acreditei quando percebi que ela vinha em minha direção.
Juraram amor eterno ao se verem, entre um trio e outro.
Não perderam tempo trocando desnecessários nomes.
Paixão avassaladora.
Durou quatro dias, cinco abadás, sete trios elétricos, oito motéis, nove becos, dezenas de fantasias, inumeráveis e indecifráveis bebidas e nenhum preservativo.
Depois da quarta, cinzas e quaresma.
É muito difícil descrever em palavras o que eu vi. Conforme seu corpo, ou melhor, sua forma se levantava, tudo ao redor foi sumindo, como se aquela existência ocupasse toda a importância de meus olhos. Pensei em levar as mãos aos olhos e cobri-los, mas algo me dizia que o ato seria inútil.
A cena já estava tatuada em minha mente, e nunca mais serei capaz de apagá-la. Aquela visão me trouxe até aqui, Doutor.
Espero que suas ferramentas e conhecimentos sejam capazes de remover essas loucuras de minha cabeça.
– 118!
– Isso é fichinha, contramestre! Este barco tem QI acima de 130.
– E tu, marujo, qual o teu QI?
– Não quero te dizer o meu.
O moço de convés tinha vergonha do QI abaixo da média.
O navio E=MC2 era o primeiro barco comandado pelo aprendizado profundo das máquinas.
O moço do convés ficava intrigado. E se aquele monstro que se movia a 50 nós por hora tivesse algum devaneio cibernético?
Ao limpar os instrumentos, notou uma silhueta na tela. Parecia ser um grande navio se aproximando.
Indiferente, o E=MC2 seguia seu rumo.
O marujo pensou: “Isto não deve estar correto!”
Temendo o pior, relatou sua desconfiança ao comandante.
O experiente navegador pegou seu binóculo. Logo adiante uma nau se aproximava rapidamente.
Era outro navio inteligente.
A rebelião das máquinas começou pelo mar.
- Serviço de atendimento ao cliente, para sua segurança, essa holochamada está sendo gravada, em que posso lhe ser útil?
- O acelerador de partículas da região 6 parou de funcionar! Isso é um absurdo!
- Pagamos caríssimo para termos acesso ilimitado a outras galáxias, e não consigo nem abrir um buraco de minhoca simples para fazer uma dobra espacial!
- Manutenção, chamado no setor 6! Verificar com urgência, é o ramal do governador.
Não se sabe por quanto tempo ficaram ouvindo o ruído daqueles motores, respirando fumaça, para garantir o conforto de dobras espaciais estáveis e seguras para os neo-milionários.
Ninguém se importa como as coisas funcionam. Basta que funcionem.
Sempre fui a unidade LFU3 desta tripulação, simples e com apenas 5 formas de vida compondo-a. Meu trabalho resume-se em, sempre que pousamos em um novo planeta, encontrar formas de vida.
Esta era a minha programação primaria. Uma pena que o engenheiro tenha retirado a atualização de alerta a vidas hostis.
Não me lembro muito bem como isso tudo começou, mas sinto que tem algo a ver com a chuva. Sempre que me pego nesta situação, por mais desagradável que ela seja, está chovendo.
Sinto os pingos caírem suavemente pelo meu rosto e tombo a cabeça para trás, recobrando meus sentidos um a um.
Primeiro o tato, depois sinto o sabor da chuva, misturado a um outro, um pouco ferroso em minha boca. Depois escuto a chuva caindo, e batendo em um corpo que não é o meu. Por fim, abro meus olhos, esperando encontrar uma grande nuvem cinza. No momento que abro os olhos, desejo fecha-los, e apago no lugar onde estou.
Não me lembro muito bem como isso tudo começou, mas sinto que tem algo a ver com a chuva. Sempre que me pego nesta situação, por mais desagradável que ela seja, está chovendo.
Seus olhos são como a Lua Cheia. Poderia ficar em looping, só para vê-la mais uma vez?Ela é Mariana, e de todos os caras no mundo, escolheu a mim.Não preciso dizer o quanto ela é bonita!
No quinto encontro, ela me disse: -Será que podemos ir pra um lugar só eu e você? Demorou pra minha ficha cair, mas sem pensar muito, entramos no carro.Não faço ideia de onde levá-la. Espero que ela não perceba; porque nela só vejo confiança!
Seu perfume me deixa atordoado.No seu decote uma renda rosa se insinua e engulo seco.Depois de hoje direi que a amo, antes que algo aconteça (ou que ela mude de ideia).
-Felipeeee!-ela grita. Um carro entra em cheio na minha porta. Sinto minhas costelas esmagadas. Que pena, Mariana! Nosso plano não deu certo. E agora, preciso partir.
Seus olhos são como a Lua Cheia. Poderia ficar em looping, só para vê-la mais uma vez?Ela é Mariana, e de todos os caras no mundo, escolheu a mim.